terça-feira, 5 de junho de 2012

Paz, Nísia Back e Mariano da Rosa

Paz*

Não o silêncio bucólico
da vegetação da serra,
mas a paz que oxigena
as entranhas da floresta!

Não o plástico silêncio
de um ateliê artístico,
mas a paz que fomenta
o gênio da criação!

Não o místico silêncio
das atmosféricas nuvens,
mas a paz que fecunda
o horizonte do eu!

Não o silêncio mecânico
destituído de essência,
mas a paz que deflagra
uma existência sanguínea!

Não o silêncio litúrgico
que mumifica o fiel,
mas a paz que transforma
a própria dor em antídoto!

Não o bélico silêncio
de uma pós-revolução,
mas a paz que milita
entre os voluntários mártires!

Não o cósmico silêncio
que a infinitude cultua,
mas a paz que incorpora
o eterno do "aqui-e-agora"!

Não o químico silêncio
que neurotiza os instintos,
mas a paz que exorciza
o oculto mal da alma!

Não o utópico silêncio
que aliena o pacifista,
mas a paz que protesta
que os direitos reivindica!

Não o silêncio político
que a liberdade suprime,
mas a paz que equilibra
os extremos divergentes!

Não o silêncio elegíaco
que a necrose soleniza,
mas a paz que celebra
o milagre gestativo!

Não o silêncio humano
que a ausência substancializa,
mas a paz que une em "nós"
eu e Deus - e o semelhante!

*extraído de O Todo Essencial, Universitária Editora, Lisboa, Portugal, do escritor Mariano da Rosa [poeta, investigador e ensaísta]